[81 anos da Revolução e Guerra Civil Espanhola] Entrevista com Buenaventura Durruti (24/07/1936)

“As forças facciosas foram às ruas no domingo, 19 de julho, às 5 horas da manhã, e na segunda-feira à tarde, às 17 horas. Garcia Oliver anunciava na Rádio Barcelona que o povo tinha vencido o fascismo no transcurso de uma luta desigual. Nunca se tinha visto desaparecer o poder do Estado com tanta rapidez. Em menos de 72 horas, o Estado não mais existia, senão de nome. O pouco de forças representativas que lhe restavam logo se fundiram no povo. A C.N.T. e a F.A.I. eram senhoras absolutas da situação, tanto em Barcelona quanto na província. ” Durruti: da revolta à revolução.

Retomamos aqui uma importante entrevista realizada com Buenaventura Durruti 4 dias após as explosões da luta popular operária e camponesa da Espanha. Luta que ganhou proporções internacionalistas e com grande participação das Brigadas Antifascistas.

Trazer na memória esse importante marco histórico de luta avançada e de organização dos meios de produção é fator essencial para analisar os erros e acertos deixados como ferramentas para as lutas futuras. Um outro mundo é possível…

VIVA A EXPERIÊNCIA REVOLUCIONÁRIA ESPANHOLA!

19 DE JULHO DE 1936 /// 19 DE JULHO DE 2017

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“O que une momentos históricos da resistência humana com o desejo de construir um novo mundo, dos primeiros guerreiros da liberdade na história à Comuna de Paris e ao levante dos Zapatistas às praças da liberdade em Rojava, é o poder indestrutível de ousar imaginar. É a coragem de acreditar que a opressão não é o destino. E por isso lutamos pelo desejo mais ancestral da humanidade: A BUSCA PELA LIBERDADE.”

Dilar Dirik

 

“A proposta alternativa surgida dessas críticas (ao Estado) se chama Confederalismo Democrático, um sistema sem um Estado centralizado, onde as mulheres desempenham um protagonismo central para a construção de uma sociedade livre. Neste sistema, a libertação das mulheres é a primeira condição para uma sociedade livre […], uma sociedade só pode ser livre com a libertação das mulheres. “

Melike Yasar

Luta & Resistência Curda – uma breve reflexão Anarquista sobre o processo prático de luta

Nosso ponto de partida…

A intenção deste texto (sem pretensão de ser algo longo e profundo) é contribuir, um pouco, com a reflexão a respeito da luta e resistência do povo curdo. Não parte de uma intenção fechada e muito menos como “dona da verdade”, mas sim da proposta de reflexão aberta e com pés firmes sobre contextualizações históricas e teóricas que partem dos próprios frontes de combates; através das/os militantes que rodam o mundo na busca de ampla solidariedade à luta e resistência do povo curdo em luta. Muito tem sido falado, nos últimos meses principalmente, quando se noticiou o apoio bélico dos EUA e da Rússia no processo de combate contra o ISIS. Refletir sobre esse “apoio” de forma fechada, rasteira e mecânica pode nos levar ao erro de negligenciar o potencial de enfrentamento e a seriedade e firmeza no projeto do Confederalismo Democrático, que se avança por todo território que tem estado sob o controle comunal do povo e com a defesa do YPJ e YPG, além de outras Frentes de Luta Armada.

Nossa, não fechada, reflexão…

O processo de luta dos curdos passou a ser considerado pelos Estados Unidos e Rússia após os curdos derrotarem o Estado Islâmico/ISIS/Daesh em Kobane; por uma razão óbvia: É a região de grande interesse por ser a passagem do petróleo no Oriente Médio e, dando acesso ao mar, facilita a escoação de gás da Rússia etc. É nesse momento que os dois países passam a enviar armamento e tropas, valendo-se do discurso de que seu apoio vem porque os curdos estão lutando contra o Estado Islâmico/ISIS/Daesh. Na verdade, o apoio estadunidense não é aos curdos diretamente; acontece que os EUA passaram a apoiar a SDF (Forças Democráticas Sírias), uma coalizão internacional contra o Estado Islâmico/ISIS/Daesh, que conta com curdos, árabes, assírios, armênios etc.. Em suma, o que os EUA estão “apoiando” é o combate ao “terrorismo”; não a luta pela libertação curda, que é mais abrangente que a luta contra o Estado Islâmico/ISIS/Daesh. Prova disso é o fato de que, mesmo participando da coalizão internacional que também conta com combatentes curdos, o departamento de segurança dos EUA mantém diversos grupos de Rojava em sua lista de vigilância ao terrorismo.   Ao mesmo tempo, EUA e Rússia também apoiam Bashar al-Assad, Erdogan e o próprio Estado Islâmico, porque, seja qual for o resultado, eles querem tirar vantagens.

É preciso compreender que dentro do movimento dos curdos existem vários partidos e grupos; o PKK é influente, mas não tem o controle total. O que reivindicamos não é a totalidade disso, mas o que a ala esquerda tem construído. Esse trabalho vem de muito tempo, é um trabalho de base de décadas. E é a ele que a esquerda do mundo precisa se solidarizar. Todo o movimento de libertação curda está em disputa, por forças locais e internacionais. É por isso que o trabalho dos socialistas tem sido constante junto ao povo, no sentido de transformar a cultura, construindo a autodefesa e buscando formar uma organização por fora do Estado – desconstruindo a ideia de que precisam reivindicar a independência para, depois, formar um estado-nação curdo simplesmente. Quando se busca construir com o povo a autodefesa e a autonomia, é justamente para que esse povo não fique refém de governos e forças exteriores no momento em que a guerra acabar. Os militantes marxistas/anarquistas/e outros de posicionamento crítico têm ciência do que representa a entrada dos Estados Unidos e da Rússia; e sabem que pós conflito eles vão impor suas medidas – “É muito fácil, e conveniente para certos poderes, apropriar-se da luta em Kobane para as suas próprias agendas. Mas como Salih Muslim e outros disseram: os curdos não serão mercenários de ninguém. Acabou-se a luta pelos demais. Se as pessoas realmente quiserem apoiar a longo prazo estruturas democráticas seculares, devem empreender ações políticas radicais, como o reconhecimento dos cantões de Rojava e das suas forças de defesa, bem como a eliminação do PKK da lista de organizações terroristas” (Dilar Dirik, ativista no Movimento de Mulheres Curdas).

A estratégia que parece se desenhar é preparar o povo para esse momento. Não é à toa que o trabalho não está apenas nas barricadas, mas sim no trabalho de base cotidiano nas cidades ainda povoadas e nos campos de refugiados. Enquanto se faz um tipo de política representativa internacionalmente, e algumas forças preferem essa esfera, pelo conselho geral dos cantões de Rojava, os militantes de esquerda estão nas comunas e assembleias populares junto ao povo – além do exército. Existem, assim, dois poderes em paralelo, o que ainda se assemelha ao oficial (conselho geral) e o poder do povo que está se construindo. Atualmente, se o conselho geral impor alguma medida de cima, as comunas têm poder de vetar e colocar outra medida em prática. Esses poderes estão disputando e, quando se fala revolução, o que se está a falar é que, depois da libertação dos curdos, a ideia é a de que vença o poder do povo – com autonomia, confederalismo democrático, liberdade para as mulheres, autodefesa do povo. É esse trabalho de fortalecimento do povo para a autodefesa e autonomia e contra o patriarcado que devemos reivindicar!

Há que se defender esse projeto de revolução e emancipação almejado e, dentro dos limites, colocado em prática pela ala socialista; principalmente, no que se refere às mulheres, afetadas de modo mais particular pela cultura patriarcal do que nós aqui nas nossas sociedades burguesas – exemplo, lá ainda era lei o crime de honra, casamentos forçados e mulheres proibidas de utilizar o espaço da rua. Apesar de todos os pesares, após esse processo e ainda que não vingue a revolução, as mulheres curdas jamais serão as mesmas, os homens curdos jamais serão os mesmos, o povo curdo jamais será o mesmo!

“[…] esta resistência deve proporcionar novas perspectivas sobre as diferentes maneiras como as mulheres, especialmente numa região tão feudal-patriarcal, podem emancipar-se. As mulheres em Rojava não só levam a cabo uma revolução social. Os meios de comunicação de massas fazem caricatura da luta destas mulheres como uma fantasia sexy ocidental e capitalista, mas a verdade é que estas mulheres estão a liderar uma luta social radical que pode desafiar o status quo para além do estado de sítio imposto pelo EI. Em muitos sentidos, esta luta das mulheres de Rojava rompeu os estereótipos orientalistas das mulheres do Médio Oriente como pobres vítimas que estão perdidas. Mas talvez o mais importante é que o mundo aprendeu uma coisa: que há esperança mesmo quando se está completamente rodeado pela escuridão da bandeira do EI. Que outro mundo é possível!

Dilar Dirik

[RL]